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Ayrton Senna – 50 anos de um campeão
Se estivesse vivo, brasileiro estaria completando 50 anos de vida neste domingo
Neste domingo, 21 de março de 2010, Ayrton Senna da Silva, tricampeão mundial de Formula 1, completaria 50 anos de vida. “Simply the best”, como cantou Tina Turner em 1993, o brasileiro teve uma das performances mais brilhantes da história do autombilismo mundial, começando, como muitos, pelo kart.
Depois de ser campeão brasileiro por várias vezes, foi para a Inglaterra, e lá conquistou títulos em todas as categorias que disputou: F-Ford 1600, 2000 e F-3 Inglesa, o que, naturalmente o levou para a Fórmula 1.
O ano era 1984, a equipe, a modesta Toleman, fundada pelos irmãos Ted e Bob Toleman que também serviu de porta de entrada para muitos outros pilotos como Derek Warwick, Teo Fabi, Stefan Johansson, Piercarlo Ghinzani, Johnny Cecotto, Bruno Giacomelli, Brian Henton e Pierluigi Martini.
E o time, em seus cinco anos de vida, teve seus melhores resultados justamente nas mãos de Senna, com o modelo TG84, equipado com o motor Hart Turbo. Uma melhor volta no GP do Mônaco de 1984 e três pódios, sendo dois terceiros lugares na Inglaterra e em Portugal e um segundo lugar em Mônaco.
Aliás, este segundo lugar mostrou o brasileiro para o mundo. Em uma disputa sob chuva, o então novato Senna teve uma das mais brilhantes performances já vistas em um GP, especialmente por um principiante. Lá na frente, Alain Prost (McLaren) fez a pole-positon e liderou a prova desde o início. Largando em 13º lugar, o desconhecido brasileiro foi ganhando posições, mesmo com toda a dificuldade que é ultrapassar nas apertadas ruas do principado.
Na 31ª volta de 78, ele estava em segundo lugar, colado em Prost e com outro desconhecido, o alemão Stefan Bellof (Tyrrell), em terceiro. Quando ele ia ultrapassar “Le Professeur”, “misteriosamente” a corrida foi interrompida. Como ainda não havia passado dois terços da prova apenas foi atribuída metade da pontuação para cada piloto. Prost, o maior beneficiado da história ficou com apenas 4,5 pontos e, lá na frente, perdeu o título para Niki Lauda por meio ponto…
No ano seguinte, 1985, Senna foi contratado pela Lotus, uma equipe consagrada, mas que já iniciava um ciclo decadente e já não era o mesmo time que levou Emerson Fittipaldi ao primeiro título mundial.
Na primeira de suas três temporadas pela equipe, a sua segunda na Formula 1, ele fez sua estreia no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, mas abandonou por problemas elétricos. Na segunda corrida, em Portugal, tudo foi diferente.
Nos treinos, Senna fez a pole position, a primeira de sua carreira, largando lado a lado com Alain Prost, seu eterno rival. Em sua segunda aparição como o “rei da chuva”, venceu a sua primeira corrida, de ponta a ponta, com 1:02 de vantagem para o segundo colocado. Detalhe: era apenas a 17ª vez em que conduzia um Formula 1.
Pena que os problemas com o carro e os motores (Renault) viraram uma constante. Prova disso é que nas sete corridas que vieram a seguir, Senna não somou ponto algum e teve que assumir a condição de mero coadjuvante na briga pelo título.
Para não dizer que foi uma decepção, na segunda parte da temporada, com o carro desenvolvido, conquistou sua segunda vitória (pra variar, com chuva) em Spa Francorchamps, a pista que mais gostava e mais quatro pódios, sendo dois segundos lugares, nos GPs da Áustria e da Europa, e dois terceiros lugares na Holanda e na Itália. No final, o campeão foi Alain Prost, da McLaren. Senna foi o quarto colocado.
A era Lotus
No ano seguinte, 1986, a temporada começou com um segundo lugar no GP Brasil, vencido por Nelson Piquet em Jacarepaguá. Ele faturou a segunda prova da temporada, o GP da Espanha, em uma chegada emocionante contra o “leão” Nigel Mansell. Na corrida, realizada em Jerez de la Frontera, ele venceu pela diferença de um bico. Literalmente. O brasileiro recebeu a bandeirada com o britânico ao seu lado, com a diferença de exatos 90 centímetros.
O GP dos Estados Unidos daquele ano, realizado em Detroit, marcou um gesto que entraria para a história: Senna, pela primeira vez após uma vitória, deu a chamada volta da vitória com a bandeira do Brasil em mãos.
Ele ainda teria outros três segundos lugares (Bélgica, Alemanha e Hungria) e dois terceiros lugares (Mônaco e Mexico). No final, terminou a temporada em quarto lugar, com 55 pontos. O campeão seria Alain Prost que, mesmo com um carro inferior, aproveitou a briga interna dos pilotos da Williams, Nelson Piquet e Nigel Mansell, para chegar a mais um título.
O ano de 1987 seria o último de Ayrton na Lotus que contava com novidades: a cor amarela, resultado da “troca de cigarro”: o patrocinador principal, John Player Special, dava lugar à Camel. Na motorização, saia a Renault e entrava a japonesa Honda, que lhe levou a seus três títulos mundiais.
Senna venceu duas corridas: Mônaco, GP que lhe consagrou ao longo da carreira e mais uma vez em Detroit, nos EUA. A novidade é que chegou a ser líder daquela temporada, em que conquistou quatro segundos lugares (San Marino, Hungria, Itália e Japão) e dois terceiros lugares (Inglaterra e Alemanha). No fim, terceiro lugar na temporada que teve Nelson Piquet conquistando seu tricampeonato e Nigel Mansell em vice. Uma curiosidade histórica: a temporada acabou nos treinos para o GP do Japão, com uma batida forte de Mansell que lhe tirou daquela prova.
McLaren e tricampeonato
Na McLaren, Ayrton Senna viveu sua melhor e sua pior fase na Formula 1. Ele chegou à equipe em 1988, para ser segundo piloto de Alain Prost, então bicampeão mundial e “dono” da equipe.
Sem ser leviano, a condição de segundo nunca agradou ao brasileiro, mas à época, não existiam de forma tão explícita o chamado jogo de equipe e, como conquistou amigos rapidamente na equipe, como o mecânico mexicano Jo Ramirez, Senna conseguiu contornar com maestria a suposta desvantagem que teria. E melhor: com seu talento, conquistou também a Ron Dennis, chefe da equipe.
Estava feito o palco de uma das maiores disputas internas já vistas em uma equipe da categoria. A relação entre eles esteve à beira da inimizade por diversas vezes. Mas, ao contrário do que muitos pensam, era algo que dentro das pistas, pelo talento mútuo virou uma briga de cavalheiros, que teve suas arestas resolvidas em 1993, quando Senna venceu uma corrida e chamou Prost para ficar ao seu lado no alto do pódio.
Na temporada 1988, a McLaren venceu nada menos do que 15 das 16 corridas – a outra foi vencida por Gerhard Berger, então na Ferrari. Um carro fantástico com pilotos fantásticos. A diferença no final foi de apenas uma corrida, com o brasileiro vencendo oito e o francês, sete.
A temporada se encerrou com um épico GP do Japão. A prova, que fora realizada na madrugada brasileira, marcou o chamado desempate, com a oitava vitória do brasileiro, punhos ao ar, emoção e choro. Um título na primeira temporada de McLaren ao melhor estilo corinthiano, seu time de coração, em que Senna precisou “gastar” seu talento para conquistar a vitória.
Ele largou na pole position, mas na largada, errou, perdeu a marcha e caiu para o 16º lugar. Prost, então estava na ponta e com o título na mão. Senna sabia disso, mas não desistiu. A partir deste momento, o que se viu foi uma das maiores apresentações individuais de um piloto já vistas em qualquer categoria.
Um a um, Senna foi passando os adversários, fazendo o que lhe restava, passando os adversários como se fossem meros retardatários – inclusive Alain Prost que acabou quase onze segundos atrás. Um título incontestável, resumido por uma frase do francês: “agora acabou”.
Na temporada seguinte, veio o troco. Fato é que os talentos dos dois eram pequenos demais para a McLaren e justamente este fato iniciou uma das grandes vinganças da história do automobilismo. Tudo começou no GP de Portugal, quando Senna fechou Prost. Isso gerou um tratado de “não ultrapassagem” na primeira volta entre os dois nas corridas subsequentes, mas que foi quebrado pelo brasileiro no GP de San Marino.
No final daquela temporada, Senna chegou ao Japão precisando vencer. Em segundo lugar, colou no “professor” e forçou a passagem na chicane que antecede a reta de chegada, por dentro, fora da tangência. Os dois colidiram, os motores apagaram e Prost abandonou a corrida.
Senna, por sua vez, pediu auxílio aos fiscais, que o empurraram para voltar a corrida e, em cinco voltas, ultrapassou Alessandro Nannini para conquistar a vitória. A manobra, contudo, foi considerada ilegal, pelo “corte de caminho” e causou sua exclusão da corrida, dando o título ao francês o que, para muitos (brasileiros), foi visto como uma “patriotada” de Jean-Marie Ballestre, então presidente da FIA e compatriota de Prost. Entre os pilotos, a culpa foi do brasileiro, fato resumido em um comentário do próprio italiano que fora ultrapassado e acabou herdando a vitória: “Senna deve ter enlouquecido”.
No ano seguinte, 1990, o segundo título de Senna veio com o gosto da vingança no mesmo circuito de Suzuka. No briefing, a reunião entre os pilotos, o clima era tenso. Senna estava em vantagem e um novo acidente entre ele e Prost lhe daria o título. Nelson Piquet sugeriu que deveria ser permitido cortar pela chicane caso alguém passasse reto. A medida não foi aprovada porque Senna, que tinha sido desclassificado por esse mesmo motivo no ano anterior, não concordou: “Não aceito isso, só pode ser piada. O que aconteceu ano passado foi uma piada. Essa é mesma situação”, reclamou, antes de abandonar o encontro.
Fato é que Senna já sabia o que iria fazer. Largando do chamado “lado sujo” (algo que também não concordava) havia decidido o que faria: causar um acidente e dar o troco em Prost com a mesma moeda. E assim foi. Deixou Prost fazer a primeira curva na frente, forçou para cima do francês e ambos deixaram a corrida. Fatura liquidada em menos de 30 segundos de prova. Vingança, contra Prost e contra a FIA de Ballestre, que nada pôde fazer.
No ano seguinte, veio o terceiro título, com mais dificuldades. Senna venceu as quatro primeiras corridas, com relativa facilidade, mas reclamava do carro. A Williams, recheada de componentes eletrônicos, vinha “babando” atrás. A marca foi a vitória de Senna no GP Brasil, com problemas de câmbio e perdendo cerca de 40 segundos de vantagem para Riccardo Patrese, o 2º colocado, que chegou a menos de 3 segundos no final.
Prova do esforço hercúleo para manter o carro com apenas duas marchas na pista, foi a dificuldade com que o piloto levantou o troféu, esgotado física e emocionalmente. Ah, sim, e sob chuva.
Depois do GP do México, a quinta etapa, o carro rival cresceu, venceram quatro provas seguidas e, mesmo com Senna ainda à frente, assustavam. Uma evolução do carro foi providencial. Com vitórias na Hungria e na Bélgica, aliado a uma falha da Williams, a decisão foi para o Japão.
Senna segurou Mansell, enquanto Berger caminhava à frente. Na 10ª volta, Mansell erra, vai para a caixa de brita e abandona a prova. Senna é campeão, mas ainda havia mais uma coisa a fazer. Ele chegou a passar Berger mas, na última volta, na última curva, abriu para o companheiro passar e vencer a corrida, uma manobra que causou muita polêmica.
Fim da era McLaren
Em 1992, a pior das temporadas na McLaren. Com a Willians voando a bordo da eletrônica embarcada, Senna pouco pode fazer. Um momento emblemático foi quando ele se ofereceu para pilotar “de graça” pela equipe britânica. Mansell, foi o campeão, abandonou a categoria e Frank Williams contratou Prost. A única exigência que ele fez foi não ter Senna como companheiro. E assim foi.
Em 1993, Senna venceu cinco corridas, com destaque para o GP da Europa, em Donington Park, com muita chuva. O brasileiro largou em quarto, tomou um “apertão” do então novato Michael Schumacher e depois jogou tudo. Prost, com seis trocas de pneus (e Hill, com sete) ficaram para trás.
Senna, em uma das melhores performances da carreira (superada apenas por Suzuka 88) passou um a um os seus concorrentes e alcançou a liderança ainda na primeira volta. Apesar do começo promissor, Prost reagiu e foi campeão no GP de Portugal. Senna foi vice, com honras.
No final daquele ano, após o GP da Austrália, prova que encerrou a temporada, era claro que, apesar do vice-campeonato, Senna e sua McLaren Ford foram os destaques. Tanto que Tina Turner, em um show, lhe dedicou a musica “The Best”, que acabou marcando a trajetória do piloto. O refrão diz tudo: “você é simplesmente o melhor, melhor que todo o resto, melhor que qualquer um, que eu já tenha conhecido”.
O fim
Em 1994, Senna estava feliz. Havia conseguido assinar com a Williams, então bicampeã mundial e favorita ao título. Na primeira corrida, contudo, as dificuldades começaram.
O carro, até então imbatível, já não era mais o mesmo. Senna classificara o carro da equipe no ano anterior como sendo “de outro planeta” mas, em entrevista a Nilson César, da JP, afirmara que o carro que lhe deram “era bem do planeta Terra”. A temporada começara no Brasil e, mesmo com a pole, Senna não conseguiu segurar Michael Schumacher, então na Benetton, que foi para a liderança. Andando no limite, o brasileiro conseguiu descontar a diferença e, fatalmente chegaria no Alemão, mas rodou na junção e abandonou a corrida.
O carro tinha sérios problemas de estabilidade. Na segunda corrida, o GP do Pacífico, Ayrton foi acertado por Mika Hakkinen e acabou abandonando a corrida, vencida, de novo, por Schumacher. A terceira corrida era o GP de San Marino que, para o brasileiro, marcaria uma virada na temporada.
O final de semana, por si só, já indicava que algo de errado aconteceria. Na sexta, Rubens Barrichello sofreu grave acidante na última curva. No dia seguinte, o austríaco Roland Ratzemberger faleceu na pista após bater com violência.
Esses fatos abalaram Ayrton, que, nitidamente, se sentia desconfortável na pista. Ele chorou muito ao receber a notícia da morte do colega de categoria e foi aconselhado, inclusive, a abandonar as pistas pelo Dr. Sid Watkins, médico da categoria.
Mas, ele não quis. Ele tinha obrigações a cumprir. O dia era 1º de maio de 1994, justamente o Dia do Trabalho, e ele largou bem, liderava a corrida, mas uma mudança que ele pedira no carro, se mostrou fatal.
A barra de direção se quebrou e carro passou reto na extinta curva Tamburello, a mais de 300 km/h, em direção ao muro de concreto.
Na ocasião, um dos braços da suspensão dianteira foi projetado contra o capacete de Senna e o perfurou. Mesmo com os esforços dos médicos, Senna não resistiu e faleceu, aos 34 anos.
Era o fim de uma carreira vitoriosa e o início de um mito, não só dos brasileiros, mas de todos os fãs de velocidade pelo mundo.
Feliz do país que tem um ídolo, um heroi como Ayrton Senna. Parabéns, campeão!
Ouça o primeiro título de Senna e também a entrevista concedida após a vitória no GP Brasil a Wanderley Nogueira. |